Vermelho espanhol
Assistir aos canais estrangeiros era uma forma de lembrar de lugares por onde andava a mulher que mais amou em sua vida. Não tinha mais qualquer contato com ela, nem notícia, e aquela voz suave que o remetia ao som das folhas das grandes árvores que se agitavam com as primeiras lufadas de vento das manhãs frias das montanhas era apenas uma lembrança poética que em vez de ternura agora lhe trazia uma sensação sempre triste. Aquela mesma voz, de bons dias sonolentos, de um olá sensual e que dizia “carinho” quando queria se enroscar nele não ouvia mais. Agora Kass passeava por canais da Alemanha, Inglaterra, Itália, França, Portugal e Espanha como se espiando diversas janelas em busca de algo sobre ela.
Um programa idiota de auditório no canal italiano. Mudou por não suportar a voz vulgar da apresentadora loira e peituda. Não tinha nada a ver com seu amor aquilo. No canal francês, noticiário. Viu duas matérias de assassinatos. Franceses parecem gostar deste tipo de assunto. Mudou. Cai na emissora inglesa. Uma âncora chatíssima narrando desgraças do terceiro mundo com a mesma entonação de um radialista em jogo monótono de rugbi. Pulou. Deparou-se, então, com um enfadonho programa de culinária da tv portuguesa. Ficou com nojo do prato em pauta. Clicou o próximo canal. TV alemã. Um programa de auditório onde se ouvia mais as risadas artificiais do que a conversa. E incompreensível. Parecia uma transmissão intergaláctica. Não se deteve nem cinco segundos neste canal. Passou para a TVE, da Espanha. Transmissão de uma tourada. Estava no início da bestialidade. O touro acabara de ser solto na arena. Milhares de pessoas assistindo e o locutor extasiado narrando ruidosamente. Era uma espécie de estádio, e aquela gente toda gritando, agitando suas banderolas, aplaudindo. Kass se deteve neste canal.
O touro entra assustado. Investe imediatamente contra dois sujeitos vestidos com roupas medievais, muito parecidos com palhaços, só que mais efeminados e terrivelmente sádicos. Os caras são cruéis mesmo e, com habilidade, distraem o pobre touro com uma manta vermelha e lhe espetam afiados dardos adornados com cores vivas em seu dorso. Sangra muito. O touro fica furioso. A câmera foca em seu focinho e boca. Muita espuma de ódio. E o bicho baba. Kass fica indignado com a cena lamentável. Mas o narrador, com seu castelhano, parece que vai ao delírio com o sofrimento do pobre animal. E o público também. A transmissão faz questão de mostrar as pessoas saltando, gritando e torcendo contra o animal covardemente ferido e atordoado com tudo aquilo. São pessoas demasiadamente brancas, com suas caras gordas e rosadas, seus cabelos loiros e negros, e jovens e velhos, garotas e garotos, todos ali, enlouquecidos, sorridentes e orgulhosos da bravura daqueles dois palhaços na arena aproveitando-se da ingenuidade do touro que só investia inutilmente com seus chifres contra aquele tecido brilhante e vermelho.
Escrito por Mauro Cassane às 12h07
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continuação...
Kass sentiu-se envergonhado por ser humano naquela hora. Uma vergonha crua, que entrava por seus poros, penetrava em seu corpo, percorria suas veias e atingia sua alma. Nojo de ser humano. O animal estava ali, ofegante, os dois palhaços espetavam ainda mais dois dardos. E esses dardos ficavam cravados no dorso do touro. Agora eram quatro dardos balançando nas costas sangrentas do animal. O bicho já cansado, humilhado, espumava ainda mais de raiva. Ódio de todos os humanos. Daqueles que ali o feriam, daqueles outros todos que ali instigavam aquela atrocidade, e de todas as milhares de pessoas que assistiam aquela transmissão escrota. Espanhóis na maioria, e Kass, um brasileiro que até então estava apenas com saudade de ver algum lugar onde, quem sabe, pudesse estar a mulher que tanto amou. Não conseguia mais trocar de canal. Aquela voz do narrador, cada vez mais delirante, com um castelhano agora nojento, parecia estimular ainda mais a covardia daqueles dois palhaços frescos e covardes.
Mas o momento de delírio máximo ainda estava por vir. O touro pára por alguns instantes tentando recuperar o fôlego. Está abatido, cansado e seu olho não tem mais brilho. Mas permanece com toda sua dignidade e orgulho em pé. Soam umas trombetas estúpidas, como um apocalipse diabólico, e entra um idiota ainda mais veado, todo afetado, com um rebolar insinuante, com sua roupa vermelha e dourada totalmente colada num corpo esguio e com claros contornos femininos, carregando um manto brilhante em uma mão e um chapéu de Mickei em outra. Entrou como um herói, foi loucamente aplaudido por toda aquela gente, o narrador quase chorou ao descrever essa estúpida figura entrando na arena. Os palhaços bichas se afastam. Kass deduziu que, agora sim, se iniciaria o espetáculo do toureiro. A tal tourada. Agora sim, com o touro já quase sem poder andar, respirando com grande dificuldade, lá está o espanhol de merda, o toureiro, com sua cara de raiva, com sua boca provocadora, fazendo caretas para o touro que, nesta altura, já sentia o cheiro da própria morte, pois seu sangue já estava misturado com sua baba, sentia sua dignidade escorrer pelas narinas, sentia a dor terrível no dorso que o enfraquecia. Então o toureiro o provoca. O insulta com aquela cara de coragem típica dos covardes. O touro, mesmo trôpego, ainda busca o ar e investe com fé contra um pedaço de pano vermelho. O toureiro faz então seu espetáculo, seu balé triste, e recebe aplausos por tirar uma com a cara do touro. Dá as costas ao bicho para exibir sua bravura, rebola, dá passinhos em falso, dá suas piruetas no meio daquele circo de horrores. E o público vai ao delírio. Ao menor sinal de algum sucesso nas investidas do touro, imediatamente entram em cena aqueles dois sádicos palhaços e tiram a atenção do touro, o cansam mais um pouco, e daí volta triunfante o toureiro.
Os auxiliares lhe entregam uma espada. O viado a exibe aos presentes. Esses aplaudem, uivam, gritam palavras de ordem. O touro já não consegue sequer ficar com ódio. Sabe que sua vida já foi. Está triste com aquele fim melancólico. Lembra de sua infância, sua bravura, suas corridas no pasto, mas agora estava diante daqueles humanos covardes, não ouve mais a gritaria. Nunca imaginara um fim tão humilhante quanto esse. Sente que vai morrer. Não entende direito como pôde perder uma luta contra seres tão desprezíveis quanto aqueles. O pano atrapalhava seu alvo. Que pena que não tinha visão periférica. Um pano mole que ele tanto foi pra cima, e o pano saia de sua frente. E o espetavam pelas costas. Morrerá pelas costas. Assim morrem os valentes. Pelas costas. Então lá vai o espanhol. Com sua cara de mal, seu jeito gay, suas sapatilhas e roupinha delicada, vai de encontro ao touro e o bicho ainda tenta algo, mas mal se move, e a espada é cravada em seu dorso. O bicho, ainda tomado por uma surpreendente coragem e vontade de viver, se balança todo e a espada é lançada ao chão. O espanhol não se dá por vencido, cheio de jeito e pompa, pega a espada, se apruma, faz caras e bocas, e perpetra mais um golpe nas costas do touro. Desta vez foi certeiro e com mais força. A lâmina penetra fundo. O touro fica desnorteado. Kass tem vontade de matar o toureiro. Os outros palhaços assassinos entram na arena. Instigam o moribundo touro um pouco mais. Ele se ajoelha de dor, já para morrer, a bicha espanhola chega perto. Faz uma cara de vitória e dá as costas ao touro que, enfim, cai morto. E lá estão os espanhóis todos em pé, aplaudindo, uma jornalista da emissora TVE entra na arena para entrevistá-lo como se o sujeito fosse um super-star. E depois ele dá sua volta olímpica e triunfal na arena, rebolando e acenando a todos aqueles imbecis com seu chapeozinho de Mickei. Kass queria apenas lembrar de seu amor e se deparou com aquilo tudo. Desliga a tv. Tourada é a tradição secular mais latente da cultura espanhola. Um grande tributo à covardia e uma cusparada na cara do amor.
Escrito por Mauro Cassane às 12h07
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