Cores Humanas


Vermelho e azul

Nasceu Antonio. Quando garoto era conhecido como Tonico. Odiava. Na adolescência, depois das primeiras incursões às salas baratas de cinema da periferia, passou a apresentar-se como Tony. Pegou. E assim ficou. No colegial não chamava a atenção de ninguém. Não era bonito, nem feio, nem gordo, nem magro. Era comum. Havia os garotos que faziam sucesso com as garotas. Aqueles que fumavam, compareciam às festas e eram estrelas. Saiam com diversas moças, sempre as mais belas. Outros garotos, fazendo tipo de descolados, também encantavam as menininhas. Brincavam de hippie, tatuavam o corpo e também fumavam uma marijuana para impressionar. Tony não conseguia fumar nem cigarro. Não sabia tragar. Tinha pavor de agulhas, e não tinha coragem de o corpo tatuar. Nas rodas de garotos, os estrelas perdiam a conta de quantas sucumbiam a seus encantos. Tony apenas ouvia. Nem namorar conseguia.

A vida se passou assim nos anos da adolescência. Mesmo sendo um sujeito comum, chegou a namorar algumas moças. Mas preferia namorar mesmo. Não era do tipo que saia com uma por noite. Nem tinha lá encantos suficientes para esse fim. Casou cedo. Teve dois filhos. E passou a barreira dos 30 anos com um bom emprego. Até que um dia conheceu uma garota com uma década a menos que ele. Saíram juntos algumas vezes, mas sempre como amigos. Ele começou a sentir algo que nunca havia antes sentido. Com ela aprendeu a fumar e a perder o medo de agulhas com tinta. Fez uma tatuagem nas costas. Era um grande chefe indígena. Homenagem a ela, que gostava de coisas e imagens dos grandes guerreiros apaches. Tony começou a revisar sua vida. E iniciou um louco processo revolucionário dentre de si. Pela primeira vez sentia que amava alguém.

Certa tarde a moça partiu. Ele já estava separado e tudo mais. Havia se preparado para ficar com ela. E ela o deixou. Foi embora com um jovem músico cheio de aventuras na cabeça. Tony foi ao metro. Comprou no caixa um bilhete azul múltiplo de dez. Estava transtornado. Não sabia para onde ir. Pensou em ir para igreja da Sé. Rezar ali na catedral, onde certamente deus o ouviria melhor. Embarcou na estação Belém. Os vagões já estavam cheio de gente. Viajou em pé, meio desajeitado, não tinha costume de andar de trem. Havia uns bancos cinzas ao lado das portas. Uma linda moça sentava em um desses bancos. Ela olhou para Tony com um olhar diferente. Ele não notou. Na estação seguinte subiu um senhor idoso no mesmo vagão. Antes mesmo do trem partir a moça solicitamente ofereceu seu lugar àquele homem de elevada idade com seus cabelos brancos desgrenhados e um ar indócil na sua cara enrugada. Ela o tocou com gentileza no ombro e o velho não a olhou e, de maneira rude, balançou a mão recusando a oferenda da jovem garota. Tony ficou indignado com o gesto grosseiro e mal-educado daquele homem. A moça voltou e sentou balançando a cabeça. Uma garotinha estava no outro lado do trem, também sentada no banco cinza, e foi até o velho minutos depois e ofereceu-lhe o acento. Desta vez o homem resmungou um não como um cão rosnando de ódio. A garotinha voltou de cabeça baixa, um tanto desapontada e surpresa pela agressividade daquele velho indolente. Tony presenciou tudo e não tirava o olho do velho. Ele se arrastou para fora do trem na estação Dom Pedro. Tony saltou atrás. Ninguém na estação. Tony o acompanhou. Na isolada calçada da avenida do Estado o velho atravessou no farol sem carros pela rua. O rio Tamanduatei ao centro. Tony o seguiu olhando para todos os lados em busca de possíveis testemunhas. O homem cruzou a ponte para alcançar a outra margem do rio. Tony correu atrás, e simulando a si mesmo um acidente, deu um tranco no velho com o ombro e o jogou na mureta da ponte. Olhou novamente ao redor. Ninguém. Então torceu o pescoço do velho e o jogou para dentro das águas de esgoto marrom do rio.

Escrito por Mauro Cassane às 16h31
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continuação...

Voltou caminhando de onde partira. Não havia carros. Nem nada. Não olhou para o miolo do rio para ver aquele corpo boiando. Seguiu para o metro novamente. Estação Dom Pedro. Botou o bilhete azul na catraca, viu o visor mostrar o número oito. Sorriu para si com um pensamento pueril. “Tenho mais oito passagens por roletas do metro”. E ficou na plataforma esperando outro trem. Desceu na Sé. Agora não queria mais ir rezar para falar com deus. Pensava no barulho do corpo daquele velho rabugento caindo no lodo do rio. Um barulho de amplificador velho. Trummft. As placas indicavam a linha norte-sul. Embarcou para Jabaquara. Começou a pensar na sua amada partindo com um outro cara. Imaginava-a beijando esse outro. Um ódio incomum fazia seu estômago congelar. Na estação São Joaquim entra um rapaz cabeludo. Calça jeans desbotada, barbinha desenhada com pequenos filetes de pêlos na cara. Um treco de metal pendurado no beiço. Uma bolsa de tecido envolta do corpo. Olhos azuis. “Deve ser com um assim que ela está agora”, pensou com frieza. O cabeludo ficava com a cara voltada para a porta de saída. Tony começou a se incomodar com essa atitude. “Que cara mais exibido. Se acha um artistas. Não se digna a olhar as outras pessoas. Fica de cara para a porta. Um mal-educado”. O jovem desce na estação Ana Rosa. Tony o segue. Ganharam a rua e o cabeludo segue por uma ladeira a passos largos. Tony o acompanha a quase dois passos de distância. Muitas pessoas pela calçada. Tony se incomoda. Queria golpeá-lo logo e fugir. O rapaz entra numa viela e mais alguns passos pára diante de um casarão. Era um conservatório musical. Quando ele abre o portão Tony, por impulso, pergunta “hei, que horas são por favor”. O rapaz volta os olhos para seu relógio de pulso, e antes de levantar a cabeça e responder leva uma pancada desnorteante e certeira na fonte esquerda. Tony havia pego um enorme pedaço de tijolo na calçada e foi com isso que desferiu o golpe. O rapaz soltou um gemido quase mudo e tombou no primeiro degrau do pequeno quintal do casarão. O sangue parecia ter caído primeiro e fez ali um leito líquido e vermelho de morte. Tony ouviu passos corridos vindos de dentro do casarão. Alguém ouviu ou viu pela fresta da janela, pensou. Deu então meia volta e correu até a ladeira principal cheia de gente. E logo estava protegido no meio da multidão.

Estava ofegante. Parecia entorpecido com aquela cena do rapaz desabando feito um estúpido Judas. Um gosto azedo e prazeroso de vingança. Deu a volta na quadra e se dirigiu novamente à estação Ana Rosa. Entrou, enfiou o bilhete, o número sete apareceu. “Quem bom, tenho bastante crédito ainda”. Agora seguia à Praça da Sé novamente. Não lembrava mais de sua angústia por perder seu amor. Queria agora chegar logo à estação Dom Pedro o mais depressa possível. Havia de ter bombeiros e polícia por lá. Queria ver aquilo tudo. Se excitava nervosamente e tinha uma ponta de orgulho em estar ali, tranqüilo e salvo. “Os dois mereciam”, pensava nesse retorno. Do vagão pode ver a movimentação no final da tarde na avenida do Estado. E havia bombeiros por lá e alguns carros de polícia. As portas se abriram, Tony desceu. E ficou espiando tudo pela mureta. Os bombeiros estavam nervosos. Curiosos em volta. E policiais com suas pranchetas tomando nota e alguns relatos. Tony rio. “Velho filho da puta, morreu mesmo o cachorro ingrato”. Tony não se contentou em olhar de longe, em lugar seguro. Resolveu ir até lá, chegar o mais perto possível. Ficou na rua, na calçada oposta à margem do rio. Observando. Alguns policiais começaram a correr pela margem do rio. Isso o assustou. “Será que me reconheceram?”. Voltou para dentro da estação. Botou o bilhete azul, o número seis apareceu. E ele embarcou rumo à Praça da República. Queria ver a luz do fim do dia brilhando nos prédios alaranjados ao redor da praça. Queria ver o Edifício Itália com seu cavalo negro na frente, com seu brilho velho e impondo-se nessa cidade kafkana. Na República seguiu veloz, o sol estava sumindo por trás da arquitetura seca paulistana. Queria ver o dourado. Ele sempre se lembrava dela ao ver o bronze das tardes estampado nas paredes de sua cidade. Na correria trombou uma garota gorda. Pediu perdão. Ela o xingou nervosamente. Tony não se importou na hora. Estava louco para ver os derradeiros brilhos da tarde estampado nas paredes. Queria aquela lembrança de seu amor. Do meio da praça avistou o dourado nas paredes amarelas e cinzas. Se emocionou. A gorda ainda blasfemava contra ele parada no meio da praça. Todos os ignoravam, passavam apressados. Fim de tarde em grande cidade. As pessoas querendo retornar a seus lares para se ensebarem de comida e se entupirem de álcool. A pressa torna todos invisíveis. Tony se dirigiu friamente à gorda. Na frente dela chutou-lhe a barriga. Ela caiu. Imediatamente sentou outro pontapé de pico no meio da cara. O sangue jorrou como água de poço artesiano. Desgraça alheia nunca é invisível. Tony ouvira expressões de indignação. Mas ninguém se aproximou. Ele saiu caminhando apressado. Outra poça vermelha e gosmenta pelo chão da praça, e a gorda estatelada. Um pedaço de dourado ainda brilhava na ponta cinza dos prédios. Descendo apressado as escadarias do metro, Tony deu ainda uma olhada para trás para ver essa luz indo embora. Na escadaria todos ficam invisíveis novamente. Já caminhando tranqüilo Tony deposita o bilhete azul na catraca. Aparece o número cinco. “Puxa, será uma noite e tanto. Talvez eu consiga esquece-la”.

 

 

 



Escrito por Mauro Cassane às 16h30
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A cruz azul

Mesmo com os primeiros raios solares cortando o horizonte e anunciando outra manhã quente no tradicional inverno abaixo do equador, os pássaros dando rasantes sobre a grama úmida do cemitério, e senhoras sorridentes caminhando pelas alamedas floridas do parque ao lado, Kass seguia sorumbático com suas passadas determinadas, numa espécie de catarse, suando antes de todos acordar. Tentava convencer a si mesmo que queria manter a forma, mas sua intenção velada era apenas, nesse exercício sistemático, recordar. Gostava de andar sozinho pelas ruas fantasmagóricas do cemitério para pobres e indigentes. Aquelas flores todas murchas pelo chão, coroas e restos de velas se amontoando nas sarjetas encardidas com um alaranjado de terra remexida serviam de moldura para sua melancólica solidão. “Estão todos sob a terra e todos amaram um dia”, pensava sem diminuir seu ritmo.

Kass não olhava as campas, não gostava de ler os nomes, nem tampouco as datas de nascimento e morte. Isso o entristecia. Mas apreciava sobremaneira a sensação de percorrer caminhos sombrios. Ali não havia os atletas, as velhinhas falantes e as exibicionistas fêmeas suadas com suas roupas coladas e óculos esportivos. Era ele, os coveiros ruidosos que ficavam escavando nas quadras mais distantes e os cães vagabundos. Quando cruzava o portão carcomido, torto e enferrujado, tragava uma lufada de vento, como ao abrir o freezer e sentir aquele bafo gelado na cara. Detestava o odor das flores mortas, mas se enternecia todas as vezes que via um homem varrendo a terra de uma campa simples, adornada com plantas e uma cruz de madeira pintada de azul. Um senhor idoso, meio torto, aparentando uns 70 anos, logo cedo e varrendo a terra com um pedaço de vassoura quebrada. Todos os dias, religiosamente, lá estava esse homem curvado e cuidando dessa campa. Era o canto mais higiênico do cemitério. Com sua surrada garrafinha de plástico aguava as plantas. Cuidava daquele pequeno e deprimente amontoado de terra como se estivesse fazendo carinho em sua amada.

Esse era o único momento em que Kass diminuía seus passos frenéticos, passava como em câmera lenta, e não tirava o olho daquele senhor silencioso e zeloso daquele pequeno espaço de não mais que dois metros quadrados. Ali nem formiga passava. Terra maciça, limpa, asséptica. Flores vivas, com uma brancura suave, e pétalas brincando com gotículas de água de torneira. Um impulso louco o fazia quase flutuar nesse trecho do cemitério. Aquele senhor parecia morar ali. Nunca falhava sua presença. Ninguém caminhava no cemitério. Por que aquele homem não o cumprimentava então, Kass pensava nisso nessa  sua passagem lenta. Mas o homem, talvez envergado e doente demais, ou até mesmo muito compenetrado em tal tarefa, não notava ninguém.

O resto da caminhada era o de sempre. Campas e mais campas abertas ou destroçadas pelos cães, pedaços de ossos com farrapos de roupas pelos cantos, cruzes derrubadas, lápides sujas de mármore jogadas por todos os lados. E o estranho cântico dos coveiros sempre bem longe das ruelas arborizadas. O muro cinza, com ranhuras negras, abrigava caixas confeccionadas em cimento para o depósito de cinzas humanas. Uma infinidade de fotos e rabiscos num muro sombrio passando ao lado de Kass como um trem-fantasma deslizando sobre trilhos de alto mato. O pensamento, se não interrompido pelo insuportável fedor de carniça de alguns trechos, era sempre fixo no mesmo tema: a morte e o amor. Ambas palavras possuem assustadoras semelhanças fonéticas. A morte. Amo te. Ela tinha horror de pensar em morrer, mas sonhava às vezes com isso e se abraçava a Kass quando estavam juntos. Contava a ele esses pesadelos. Certa vez sonhou que levara um tiro. Kass a espremia ao peito, protegia-a até de seus próprios medos e pesadelos.

Numa manhã de muito vento, de repente o céu ganhou um manto negro e obscuro. Kass já havia vencido o último vagão do mórbido muro das cinzas, e desabou água pesada do céu. O choque da água com a terra levanta um cheiro forte e nostálgico, grama e terra molhada. Lembranças de um beijo com a praia ao fundo. As passadas continuaram no mesmo ritmo. Kass sorriu levemente, parecia sentir ainda aquele gosto de amora silvestre do beijo dela. No retorno passou pelo canto sagrado zelado pelo velhinho. Ele não estava ali. A chuva certamente o expulsou. Kass não resistiu. Não gostava de olhar datas de morte. Mas foi até lá. Sentiu-se como invadindo um templo. Chegou perto. Olhou a cruz azul de madeira como que chorando com toda aquela água que escorria pela terra dura e vermelha formando uma lama fina. Uma cruzinha negra, estampada em um pedaço branco de mármore anunciava a data da morte: 1975. Era uma mulher. Trinta anos se passaram e aquele homem se mantinha fiel. Kass não sabia o que imaginar. Apenas pensou: “não sou só eu”

Escrito por Mauro Cassane às 19h03
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Um ponto castanho em costas douradas

Havia uma pinta em suas costas. Ela subia o morro com suas pernas fortes, se apoiava nos arbustos, ofegava, vacilava um pouco, e continuava firme e resoluta. Alguns passos atrás, e no mesmo ritmo firme, K. não tomava conhecimento do sol que fumegava no céu, apenas se concentrava naquela pinta castanha escura trepidando na musculatura das costas dela e contrastando com seu bronze costeiro. O som poderoso de toneladas de água se chocando em pedras os fascinava. Mas K. agora não tirava mais o olho daquela pinta vibrante, como que hipnotizado por uma estrela. Havia um significado naquilo, K. distraia seus pensamentos nisso enquanto fazia sua subida. De repente ela estanca, leva a mão esquerda ao rosto, depois a direita, puxa os cabelos para trás, ajeita-os, respira, enxuga o suor do rosto. Olha para K., sorri cansada, vira-se novamente para frente e segue sua marcha compassada.

-         Você é pintuda, né?

K. solta essa frase referindo-se ao tamanho da pinta, em tom de brincadeira.

-         Que?

-         Sim, pintuda, você tem pintas grandes nas costas.

-         Ah, que horror. Entendi outra coisa.

-         Ah é...é verdade. Nem tinha notado. Desculpe.

-         Achei que você estivesse com alguma brincadeira idiota...

-         Não, falei da pinta...pinta grande nas costas.

-         Sei, já entendi...

Seguiram caminhando. Ela pareceu não ter gostado da brincadeira fora de hora. Estava cansada também. Chegaram a um platô enorme, uma rocha firme que se projetava feito uma mesa gigante como que ofertando um banquete aos deuses. Ela tirou da mochila sua máquina fotográfica e mirou um ângulo e clicou e fez isso em diversos outros ângulos com uma cara séria e compenetrada nessa tarefa aparentemente sem muita importância. Não tirou nenhuma foto de K. e ele pensou em pedir para ela tirar uma foto dele. Mas não o fez. Pegou sua pequena máquina fotográfica e limitou-se a tirar uma única foto dela, sem que ela notasse, pois estava se posicionando para mais uns cliques em uma parede inclinada do platô. K. tirou essa foto, guardou sua máquina, e ficou ali esperando a sessão de fotos terminar.

Mais uma hora de caminhada, agora em descendência, chegaram a uma espécie de garganta de rocha. Paredes gigantescas por todos os lados e, em uma delas, despencava grosso braço de água numa vertiginosa queda de uns quarenta metros fazendo um estrondo vigoroso numa rocha arredondada. Toda aquela água se descarregando na rocha. “Parece um jorro de gozo em uma bunda”, K, pensou, mas não ousou comentar. Ficaram ali por algum tempo. Ela tirou fotos. K. se ofereceu para tirar umas fotos dela com a cachoeira ao fundo. Ela consentiu. Ela também tirou algumas dele, desta vez sem ele pedir. Sentaram-se em uma pedra úmida com um tom meio ferrugem, depois deitaram, um ao lado do outro, e ficaram olhando o contraste do azul do céu com o cinza envernizado das paredes rochosas e o brilho de cristal do véu de água. Seus braços apenas se encostavam levemente. E K., num movimento quase sorrateiro, posicionou seu corpo alguns milímetros mais próximo ao dela, agora sentia também o frio desconcertante de sua coxa esquerda colada na dele. Uma nuvem veio espiar aqueles dois pequenos seres estranhos lá embaixo no buraco. Parecia um sorriso vindo do céu. Ela comentou:

-         Essa nuvem veio nos espiar, ainda bem que não estamos fazendo nada errado...

K. não respondeu, mas pensou. “Que pena que não estamos”. Queria beijá-la, estava tão próximo, sentia seus poros trocando fluídos com os dela. Resolveu fechar os olhos, pouco depois ela fez o mesmo. Dormiram ali, num altar de pedra e água sob respingos leves da cachoeira. A volta seria dura. Mas ele sonhou com aquela pinta castanha dançante. E, no sonho, ela pedia para ele passar creme em suas costas. Acordaram com o barulho ruidoso das andorinhas. Ela o havia beijado, ele fingiu que não percebeu.  



Escrito por Mauro Cassane às 13h51
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Verde esmeralda

O primeiro contato foi por e.mail. Palavras simples e formais. Ela chamou-o de “senhor” em diversos momentos. Tratavam de um emprego com uma renumeração pífia. Ele até gostaria de pagar mais, mas os patrões não permitiam. Ela estava disposta a aceitar, não queria mais ficar na cidade onde estava. No segundo e.mail não houve o tratamento de “senhor”. Junto veio uma redação deslumbrante sobre um assunto horroroso. Ele passou o tema de propósito. E ela não se importou. Fez um texto brilhante sobre um tema seco e sem vida. Ele recebeu diversos outros textos, mas o dela foi melhor. O problema é que ela estava há sete mil quilômetros de distância. As outras concorrentes não levariam vinte minutos de ônibus até o trabalho.

 

Um dia o fone tocou no escritório. Era ela. Conversaram sobre a contratação. Ele gostou mesmo do texto dela. Conseguiu uma melhora ridícula no salário. Queria traze-la. Nunca a viu, não sabia a cor de seus olhos, nem seu jeito, nem nada. Gostou dela profissionalmente. Mas num e.mail, já tratando de detalhes dessa transferência, ele perguntou algo pessoal “você namora com esse cara que te indicou”? Ela não gostou da pergunta e deixou isso claro na resposta, mas de maneira sutil, delicada e educada. Nem ele sabia exatamente porque fez tão descabida pergunta. Então ela desconversou e não respondeu. Não tocaram mais no assunto.

 

Estava contratada. Numa manhã de sol ameno ele chegou cedo ao escritório. Passou pela recepção e como sempre deu seu bom dia a quem ali estava. Ela ali estava. Ele a viu, mas desligado que era, não lembrava que ela começaria neste dia. Apenas a viu, de relance, e subiu para sua sala com a estranha sensação de “de onde será que conheço essa moça?”.

 

Dez minutos depois a recepcionista liga. “A Mary está aqui, você não vai chamá-la?”. Um contentamento louco tomou conta dele. “É ela, que legal”. Se já havia se encantado com o texto dela, com o jeito dela no e.mail, e com a voz dela ao fone, agora seu coração quase saltava à boca em saber que aquela figura que lhe pareceu tão familiar iria dividir uma sala com ele das primeiras às últimas horas de seu dia de trabalho. Não parou para refletir porque achara aquela moça tão familiar. Não se ateve a esse importante detalhe.

 

Conversaram por quase duas horas na sala. Ela se sentava sem nenhuma formalidade, e parecia bem à vontade com ele. Era apenas uma simples garota, com seus 23 anos, porém bem vividos à sua plena intensidade. Ela brilhava. Suas melenas em cachinhos pareciam dançar enquanto ela falava com sua voz de castanha. E aquele olhar de verde esmeralda o fazia lembrar de suas estrepolias de garoto quando saia para pescar de canoa com os tios e se atirava na água no meio do lago. A água era tão verde quanto os olhos dela.

 

Aquele olhar nunca mais saiu de sua memória. Eles trabalharam juntos por um ano. Depois ele seguiu para outro caminho. Ela também foi fazer suas coisas. O olhar ficou para sempre. Ele a amou, mas nunca teve coragem de dizer nada. Compartilharam muitos momentos juntos. E ele a amou. Nunca disse nada. Mas sonhou todos os dias com aquele olhar. Imaginava como seria a vida com ela. Mas ele já era um homem casado. Muitos anos depois se reencontraram. Ela continuava com o mesmo olhar de esmeralda. Já estavam mais maduros. Ele já era separado. Começaram a namorar, todo aquele amor veio à tona como uma avalanche. Poucos meses depois ela derramava uma lágrima, sozinha, diante da sepultura daquele homem que ela amou desde os 23 anos. Depositou sobre a laje uma página amarelada, rasgada de seu diário, com os dizeres “eu te amo”. Colocou sob um vasinho com flores vermelhas. Ela tinha escrito isso quando o conheceu. 

 



Escrito por Mauro Cassane às 14h28
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Cores Humanas

Não sei pintar, mas amo as cores, elas estão relacionadas com nossa história, nossa vida. Estão em nosso corpo, em nossa mente, na natureza, na vida e na morte. Estão também em nossos sentimentos e sensações. Acho que até o cheiro tem lá suas cores. "Cores Humanas" será uma série de pequenos contos, às vezes alguns poemas, retratando o cotidiano, a fantasia, os amores e as loucuras humanas e suas respectivas cores. As caminhadas no cemitério com cães vagabundos, o cheiro das velas em defuntos solitários, algumas tardes em catedrais vazias, lembranças de campos floridos, de mato e terra, despedidas cinzas no chão frio de um aeroporto, saudade incolor (qual a cor da lágrima?). Não faço diário, me escondo no meu mundo onírico, brinco com meus demônios criando fantasias. Tem a cor de um fogão à lenha, Mary sentada ali conversando. O tom alaranjado de um pôr do sol escondido. E a dor vermelha e tensa de um crime. Eis Cores Humanas pois sou um privilegiado. Consigo ver as cores, a despeito de não saber usá-las no pincel, brincarei com elas com as palavras. Minha musa, eterna musa, será a mesma de sempre e sempre. Como Avellaneda, do romance de Mario Benedetti, ou Matilde, do mestre Neruda. Bem-vindo ao mundo das letras tão cinzas que dançarão nessas páginas buscando criar os mais diversos tons das cores humanas. Me permito repetir algumas cores, e chorar com outras.  



Escrito por Mauro Cassane às 11h52
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