Cores Humanas


o fim

Então acaba aqui essa Cores Humanas. Sem grandes pretensões, mas é bem provável que vire um livrinho de contos, já que aqui tem tantos contos de tantas cores.

Agora começo outro. É assim, a gente escreve em blog porque é legal que amigos, inimigos e estranhos comentem falando bem e mal. No passado se fazia no papel e se mostrava, e era tudo igual. Agora a gente mostra sem precisar andar com a porra do papel amassado no bolso e quem lê nem precisa fazer cara de que gostou. Isso já é uma grande vantagem.

Comecei outro. Outro blog. Outro canto. Esse termina aqui. E vira livro com esse título mesmo "Cores Humanas". Acho que sai em março de 2007. Dizem que sim, eu costumo acreditar em tudo. Sempre achei que é melhor acreditar desde que isso não te custe muito caro. 

Aos que leram aqui meus contos, e alguns poemas, gostando ou não, eu agradeço. Porra, é legal saber que alguém te lê. Agora, no outro, cujo endereço deixo abaixo, são contos de viagens. Vou ver no que vai dar. São muitas viagens que ando fazendo para um livro que um dia há de sair...Por ora, relatos e fantasias! Eu aprecio as fantasias, pois um dia elas hão de ocorrer.

Eis onde me encontrar doravante:

http://cassanices.zip.net/

  

 

 



Escrito por Mauro Cassane às 19h20
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Te desejo

Queria beijar sua boca, como queria

Sentir o calor indecente de seus lábios

A volúpia de sua língua, como queria

Ah se tu me desse bola, ah que bom seria

Envolver-me nesse seu tesão voraz

Ébrio com sua saliva quente

Te faria os carinhos dos infernos

Sorveria com sede esses líquidos

Te sentiria as tetas com os dentes

E com trêmulas mãos perscrutaria sua libido

Imprimindo em seu tecido de seda

Minha marca de carvalho

Na maciez de sua bunda,

Nas úmidas pétalas de sua buceta

Meteria até seu derradeiro cio

Mergulhado em seu suor sagrado

Te quero tão puta, santa minha

Que te vejo imaculada e nua

Envolvida em gozo alheio

 

 



Escrito por Mauro Cassane às 14h52
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eu quero essa mulher

Tenho em minha mente a mulher ideal

Machismo, eu sei. Mas eu tenho

Dá vergonha de dizer, é incorreto pensar

Mas desenhada por minha desalmada alma,

eis a mulher perfeita, toda minha!

Aquela que eu queria inteira, todos os dias

Para ela eu cozinharia, daria banho

Faria mimos eternos, feita sob tão minha medida,

Ah, uma mulher como ela, que maravilha seria

Discretamente bela como a lua minguante

Sensual como as roliças rochas marinhas

Andarilha como os monges tibetanos

E tesuda feito a brisa matinal das montanhas invernais

Uau, que mulher! Me arrepia só de imaginá-la

com aquele cheiro de trigo e amora,

Encardidas sandálias de veludo acetinado

e desbotado vestido solto, simples, sempre engomado

Sua voz é o sombrio vento que percorre as savanas

tão opaco, profundo e silencioso. Que nunca vai embora!

Eu quero tanto essa mulher! Com suas formas sinceras,

Sua cor diabolicamente crepuscular, suas tetas serranas,

Cintura cigana, pernas silvestres, quero-a agora!

Sim, bom Deus meu, me dê essa mulher

Ainda que a retire das profundezas infernais

Traga-a pra mim, pois é tão sagrada e imaculada fêmea

Quero-a santa tanto e por eternos tempos que me perco sem ela

Ah, que sua presença seja olvidada por todos os mortais

Para que eu a devore em meus sonhos invisíveis de insone

Vejo-a nas festas fúnebres e nos tristes bacanais

Queria acha-la na rua, nos bares ou nos anúncios de jornais

Quero-a comigo desde que o sempre seja efêmero

E que o fugaz seja tão infinito quanto o derradeiro beijo.

Então vou amá-la para assim morrer feliz.  

 



Escrito por Mauro Cassane às 16h03
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o suicidio

 

- Abram a porra da porta, abram!

Passadas tristes, arrastadas

É o sombrio senhor da morte,

- Que queres? Que queres?

- Abra, preciso entrar!

- Não morrestes ainda, fedelho.

- Foda-se, abra logo!

Silêncio...

- Volte a seu corpo.

Silêncio...

descabidas  discussões metafísicas

nos corredores de luzes infinitas.

- Me dê um copo de água...

- Sei que não tens sede...

- Preciso entrar.

- Não! Caia fora!

a garganta dói, torcicolo

os pés flutuam, a sede aperta...

- To com medo...

- Volte, cuide de seu corpo

- Não sei voltar

- Foda-se

- Filho da puta

A escuridão volta aos poucos,

Começa cinza, assume o azul

Vozes irritantes, cheiro de terra

e grama, folhas caídas, balança

canção de ninar, sangue pisado

O pescoço dói, tá seca a garganta

Há um choro, sirene, a luz

se agiganta na tarde volátil

começa amarela, o céu ficou longe

Enxofre com pimenta, o chão é suave

A voz não sai, o grito adormece

O corpo viaja veloz no trânsito sideral

A vida volta e zombeteira dança

O corpo chora, a menina beija

A mulher reclama, o policial anota

O médico salva. O balde caiu.

O filho retorna à vulva materna

Um uivo, um gemido, a igreja tão torta

As damas beatas, tão doces e putas

Tudo em volta da cama macia,

a serpente inocente sorri encantada

Parece um doente, retrato tremido

Só faz ranger dentes, “água, água”

Sede humana de morrer como santo

Queria ser gente, encontrou o vazio

Enfermeira indecente, lhe deu água morna

Remédio, imbecil! veneno fatal

Não morrestes, incompetente.

A corda partiu...

 

 

 



Escrito por Mauro Cassane às 16h46
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um pouco de lixo...

Solidão

 

A solidão expõe as pessoas como elas são,

nos torna tão humanos, com nossas feridas

mazelas e fraquezas. Somos heróis!

 

A solidão, tesouro que nos resta,

derradeira tormenta, multidão cinzenta

ofuscada pela poeira da cidade cintilante...

 

A solidão fedorenta de nossas relações

de eternas partidas, voltas sem idas,

pela estrada infinita, somos nós os fantasmas

 

A solidão que nos ilumina a loucura

perdida nos subterrâneos higiênicos

sem nenhuma saída. Somos heróis!

 

A solidão, onírica ferida agonizante

com seu pus derramado na calçada heroína

se alimenta com os ternos abraços fraternais. 

 

 



Escrito por Mauro Cassane às 14h21
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Pecados e prazeres da carne

Julio é um paraibano bom de bola. Tem 44 anos e ainda joga futebol de campo todas as tardes de domingo. Eu o conheço desde quando éramos garotos. Ele era o mais velho e jogava horrores. Não fosse a miséria do pai, que o botou pra trabalhar com doze anos como ajudante de açougueiro, poderia até dar alguma coisa no futebol. No fim o destino foi generoso com ele, a despeito de ter cobrado por isso alguns nacos de seu braço e dois dedos da mão esquerda numa barbeiragem na hora de cortar osso de mocotó. Depois de vinte anos trabalhando para o velho Miguel, que foi assassinado há dois anos numa encrenca de jogo de cartas, juntou uma grana e comprou o ponto da família do finado. Agora toca seu próprio negócio e até aumentou a freguesia. Ao lado de seu açougue, tem o bar do Zelão onde toda noite se reúne um bando de bêbados degenerados do bairro. Brigas e polícia são coisas rotineiras. Julio, sempre taciturno, é um sujeito regrado. Após o expediente toma duas cervejas no Zelão e cai fora. Chega em casa religiosamente por volta das oito da noite. Ninguém mexe com ele. É mal encarado, forte pra caralho, mas boa praça. Casou tarde, já com 38 anos, com uma moreninha de 19 anos que impressionou no forró da favela do Mata Porco ao chegar com seu Omega metálico, ano 99. Julio é assimétrico, tem marcas profundas de varíola na cara e talvez isso confira a ele um aspecto sombrio e assustador. E é ainda mais habilidoso com a faca do que com a bola. Gosta de se exibir para a freguesia partindo os filés com muita agilidade e lançando a faca girando pra cima e a pegando firme e já pronta para partir mais algumas fatias.

A moreninha, Suzana é seu nome, parece ter sido esculpida pelo demônio para desorientar qualquer mortal. Vive pra cima e pra baixo com sua saia curta e aquela exuberante bunda estufada e banlançante, sempre metida em sapatos com saltos exageradamente altos e finos. A gente olha, mas procura não prestar muita atenção. Julio é violento e ciumento, além de muito habilidoso nessa coisa de tirar carne dos ossos com facas assustadoramente grandes e afiadas, de modo que é o tipo de mulher que o melhor a fazer é ficar bem distante. O problema é que é impossível ignorá-la. Realmente impossível.

Meu telefone toca às duas da tarde. É Fernando.

-         Meu, tenho que te contar uma parada – ele me diz com aquele velho tom faceiro de sempre que significa que trepou com alguma vadia.

-         Diga, quem foi dessa vez? – eu pergunto.

-         Você não vai acreditar! – ele faz um suspense meio idiota e juvenil.

      -    Caralho, conta logo!

Escrito por Mauro Cassane às 17h01
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continua...

-         Meti muito essa manhã. Acabei de sair do motel. – ele continua no suspense.

-         Tá. Legal. – eu digo como quem não está interessado em saber mais nada.

-         Não quer mesmo saber com quem? – ele insiste no suspense.

-         Conta logo, porra! – começo a perder a paciência.

-         Bicho, loucura, comi a Suzana! Sabe quem é ela?

-         A mina do açougueiro?

-         Ela mesmo! – ele me diz todo satisfeito.

-         Você ficou maluco? O cara vai te matar.

-         Pára, deixa de ser agourento. Preciso te contar outra coisa...

-         O que mais?

-         Ela me disse que tem vontade de foder com dois!

-         Você tá de brincadeira! – eu digo já adivinhando a proposta que viria. E veio.

-         Então, o que você acha? Você topa? Na hora pensei em você!

-         Claro! Quando?

-         Amanhã, dez da manhã, porque uma e meia ela busca a filha na escola.

No dia seguinte fizemos uma orgia escandalosa e febril a três. Suzana nua é ainda mais tesuda do que com suas roupas agarradas e provocantes. Lisinha, cheirosa e uma das poucas mulheres que conheço que abocanham um pau e gemem de prazer com o danado na boca como se fosse mesmo gozar com aquilo. Ninguém tocou no assunto Julio. Ele não é meu amigo, apenas me vende carne, sendo algumas vezes até fiado e jogava um bolão quando criança. Inclusive, muitas vezes, me humilhou tocando a bola por entre minhas pernas e me chapelando. Lembrei dessas coisas pra poder foder Suzana com gosto e sem remorsos. Ela nos fez uma proposta irrecusável. Disse que adorou a foda a três e quer meter com a gente pelo menos uma vez por mês. Fernando tem um jeito diabolicamente cínico que não consigo entender. “E você vai ser fiel a nós, com exceção de seu marido, é claro”, ele disse. Ela levou a sério, cruzou os dedos ternamente, beijou-os e prometeu que sim. Que cena absurda. A próxima foda já ficou agendada. Ela absorveu bem essa coisa de ser sistemática. Esses dias fizemos um churrasco em casa. Mandei um garoto comprar a carne no Julio. Por ora, prefiro não vê-lo manusear a faca. 

 

 

 

             

 

 



Escrito por Mauro Cassane às 17h00
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O sonho, a ira e a musa eterna

Sonhei com Sofia e acordei ensopado de suor e com tesão febril feito garanhão preso na baia diante da fêmea no cio saltitante no pasto. A gente acorda assim, de pau duro, com vontade de mijar e não consegue porque simplesmente a urina não sai com o canal enrijecido e teso. O jeito é tocar uma punheta, gozar e aí sim aquela engenhoca de nervos  relaxa e se pode mijar tranqüilamente. Me masturbei pensando em Sofia, em sua bunda, em suas ancas arqueadas, em sua indecente cintura, naquela santa pele de diaba e na sua barriguinha aveludada. Gozei rápido. Mijei e voltei pra cama faltando poucos minutos para as cinco horas de mais uma tristonha madruga solitária. Rolo de um lado pra outro, o tesão persiste, o calor seco incomoda e resseca até as tripas. Fronha e lençol parecem cheirar a serragem. Depois de muito tempo sem trepar a punheta se torna um paliativo ineficiente. Duas punhetas seguidas seria um mergulho na insanidade. Não posso fazer isso, prefiro ficar de pavio curto, sempre pronto para uma catastrófica explosão de fúria. Tento pensar em outras coisas mas minha mente estúpida se nega mesmo ciente de que o corpo padece de cansaço. Sofia está ali, insidiosamente nua ao meu lado, abraço o travesseiro bojudo de algodão e espumas e imagino seu corpo frio lambendo o meu, isso tudo me dá calafrios. Queria amarrotar aquela sedosa pele morena com a aspereza de minhas mãos pesadas e pressioná-la inteira a ponto de atá-la completamente a mim feito tatuagem. Como um idiota doente beijo o travesseiro. Me sinto mal e fraco praticando atos como esse pois fico parecendo um idiota adolescente desajeitado e carente. Eu gostaria de nem sentir tesão por essa mulher. Mas temo que a amo. Ela, naturalmente, não sabe de nada disso. Jamais saberá. Quando a vejo, sinto vontade de esbofeteá-la. E ela nutre um ódio irracional por mim. Me trata mal. A gente raramente se fala, mas adoro ouvir sua voz rouca e silvestre.

Penso nessa puta e perco o sono. Poderia dormir numa boa até tarde mas me boto em pé com as primeiras luzes do alvorecer. Olho para fora, o céu parece uma incandescente boca de fogão a lenha com as cores laranja e amarelo se esparramando preguiçosamente num vermelho profundo. Mais um dia seco e de calor insuportável nessa porra de inverno tropical. Vou tomar um banho de água fria pra hidratar os poros e ducha matinal sempre me deixa revigorado. É como nascer novamente. Gosto de me sentir limpo e renovado. Depois boto a mesa, como duas torradas com manteiga e bebo quase uma jarra de suco industrializado. Pronto, um novo homem vivo. Me sinto decente, pego meu carro e ganho a rua. A idéia é ir para a editora vazia logo cedo e escrever até aparecer os primeiros personagens de meu cotidiano que, normalmente, chegam às nove horas. Chego rapidamente e o relógio ainda não registra sete horas. Que bom, duas horas para escrever. A despeito de ser muito cedo o vigoroso calor deixa a impressão de uma gigantesca estufa. Ligo o computador e começo a dedilhar rapidamente meu interminável romance sobre dois amigos que compartilham sempre uma única linda e lânguida jovem. Sem brigas, nem ciúmes, e a danada gosta disso. Apenas uma história e prossigo com ela para me distrair nas horas vagas. História boa deve ser curta, qualquer coisa longa é enfadonha. Por isso começo já a pensar onde caralho vai dar isso tudo que estou criando. A merda é que estou curtindo e nem tenho a menor idéia por que caminho meus personagens trilharão. Foda-se. A vantagem de não ser escritor é não ter compromisso com o que a gente escreve. Fazemos apenas por tesão e assim a coisa flui como um bom jorro de porra após uma boa foda. Não deveria lembrar disso, boa foda não é exatamente o que desfruto nesses últimos e terríveis tempos. Nem sempre vivemos na bonança, normalmente nos debatemos nas enxurradas de lama.

Escrito por Mauro Cassane às 15h19
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continua...

Duas horas de ócio criativo passam rápido demais. As pessoas chegam. A jornada começa com o telefone nos atormentando, dedilhações frenéticas nos teclados, conversas, cheiro de café pastoso, risos e grunhidos. A gente gosta de alguém, podemos até amar, mas é incrível como temos ódio de nossos semelhantes. Queria ser mais zen, mas não suporto os humanos no atacado, apenas tolero alguns no varejo. Deixo meu eterno romance de lado, remexo uns discursos. Depois vem contas a pagar. Há dois livros para resenhar. Porra, outra vez livros de auto-ajuda. As editoras lançam centenas dessas merdas todos os meses. Os executivos gostam. Muitas vezes penso que esses caras deveriam ser obrigados a ler, em vez dessas porcarias, Dostoiévisk, Machado, Paulo Mendes Campos, Lima Barreto, Camus, Kafka, Borges, Baudelaire, Miller ou Hemingway. Tem tanta gente que escreveu coisas legais. E essas porras só lêem auto-ajuda. Ao menos se lessem Nietzsche. Bem, fiz as duas resenhas, pois é daí que vem meu sustento. Somos todos, de uma forma ou de outra, descaradas prostitutas. Mas eu preferia mesmo ter nascido uma linda e tesuda mulher, e assim ganharia dinheiro fodendo e não destroçando meus princípios literários.

Hora do almoço e Paula me convida para ir com ela comer no shopping. Ela não me agrada, tem uma bunda de urso e nunca bebe, e vive mandando e.mails boçais com lições de vida com um odioso “beijo no coração” no final. Tenho vontade de estripá-la por isso. Beijo no coração o caralho! Mas tem peitos gostosos e eu não fodo há tanto tempo. Aceitei. Saímos no meu carro. Ela estava sorridente e falante. Mas o tempo seco e o trânsito intenso me irrita. E, não sei por que razão, pensei em Sofia. Poderia ser Sofia ali comigo, toda brejeira e sorridente. Mas era Paula. A insossa Paula. Queria agarrá-la pela nuca e forçar a cabeça dela para baixo em direção a meu pau, e assim faze-la engolir tudo para enfim ficar quieta e me dar um pouco de prazer. Apenas imagino a cena e me divirto um pouco com meu sadismo babaca.

Num momento de alívio do tráfego na rua um Fiat velho oscila de um lado para outro na minha frente e não se decide que faixa ficar. Apenas como reflexo meto a mão na buzina e meu carro grita duas vezes como um alerta. Isso foi o suficiente para que o tal motorista do Fiat enfiasse o braço pela janela e, gesticulando nervosamente, me mostrou o dedo em riste naquele sinal universal de “vai tomar no seu cu”. Isso me deixou puto. O sinal fechou em nossa frente e foi o Fiat parar para eu acelerar e socar meu carro contra seu velho pára-choque de plástico. O tranco foi violento e jogou o Fiat para mais um metro adiante. O sujeito ficou enfezado, abriu a porta e saiu, com seu andar pesado e resoluto, para tirar satisfações comigo. Fiquei no carro, mas já estava transtornado e minha vontade era matá-lo. O bicho, um enorme homem gordo e com uma cara dramática, com suas bochechas avermelhadas e olhos esbugalhados, deve ter sentido que eu me intimidei pois seu tamanho era quase o dobro do meu. Sem belongas, e xingando muito, chutou a porta do meu carro. Fez um estrondo terrível a ponto de nos chacoalhar ali dentro. Eu não sabia direito o que fazer e ele então decidiu me agarrar pela janela enfiando seu braço para dentro, acho que com a intenção de me arrancar pela janela. Paula gritou apavorada. Eu agi por impulso e o segurei firme o que o fez se dobrar e praticamente colar sua carona perto de mim. Ele continuava xingando coisas incompreensíveis. Então puxei aquela imensa cabeça para dentro, torci, passei meu braço esquerdo por cima e pressionei com força. Aquele corpanzil se contorceu e desabou, e a cabeça ficou ali, travada sobre meu braço. Ele, no desespero, sentindo-se a ponto de abate, lascou uma dolorida mordida em meu antebraço, e isso desencadeou o desastre. Com a mão direita totalmente livre comecei a socá-lo com raiva, desferindo sucessivos e violentos golpes vigorosos em sua cara, depois, como o filho da puta resolveu travar os dentes no meu braço esquerdo, e com o sangue já escorrendo, atolei meu dedão em seu olho até sentir uma nojenta gosma envolver minha mão. O cara desfaleceu e ficou pendurado na janela do meu carro respirando com dificuldade. Um monte de sangue no meu colo. Paula já estava fora do carro aos prantos. Gente pra caralho em volta. Uma puta confusão. Mas nada de sirene. Empurrei aquela miserável cabeça pesada pra fora, gritei para Paula entrar, liguei o carro e arranquei, desviei do Fiat pela calçada, e dei o fora sob diversas caras atônitas e, ao fundo, um imenso saco de carne atirado ao chão. Acelerando, peguei seu globo ocular e atirei pra fora acompanhando pelo retrovisor aquela coisa gosmenta rolar pelo asfalto até parar para fritar na sarjeta. Soube depois que não o matei. Ninguém anotou minha placa. Nunca fui preso por isso, não me arrependo e ainda passo diversas noites sonhando com Sofia. E fico muito puto da vida.         

 



Escrito por Mauro Cassane às 15h18
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Nos dias secos e quentes os fantasmas nos assombram

Os dias quentes do inverno tropical são insuportavelmente secos. Um calor do caralho, e nada de chuva. São Paulo parece um incandescente Atacama urbano.Tudo árido e cáustico que chega a dar desespero ao respirar. Enjoei de cerveja e cachaça depois de algumas orgias etílicas. Ou é apenas efeito da ressaca de ontem. Acordei com um puta calor, fui ver um amigo e bebemos uma cerveja antes das onze da manhã. Fiquei imaginando-a como se fosse um poderoso elixir revitalizante. Depois passei mal. Vomitei tudo e fiquei convalescendo na cama sem vontade de nada até o começo da tarde. A gente precisa parar um pouco e simplesmente não pensar, não ler, não escrever, mas quando fico assim acabo despertando meus sombrios instintos assassinos e me dá vontade de estrangular pessoas que, pra mim, não servem pra nada. Nesse meu pessoal corredor da morte entra um ou outro vizinho, quase todos os políticos e até mesmo poderosos mandatários de outros países. No fim acabamos sempre pensando em algo. Uma merda.

Para fugir do tédio, resolvi caminhar um pouco pelo velho centro da cidade. Vasculhei os bolsos de minhas camisas e achei um resto de fumo prensado. Fumei. A gente sempre pensa que vai acontecer alguma coisa incrível nessas saídas sem propósito. Mas raramente acontece. Vivemos numa puta mesmice de fazer dó. Com uma boa grana hoje me acabaria num puteiro. Mas não me sobra muito depois de pagar as contas. Às vezes não sobra porra nenhuma. No metrô os paulistanos são fantasmas indiferentes que se deslocam oprimidos entre os subterrâneos. Nenhum rosto interessante, nenhum sorriso amistoso. Meu celular poderia tocar, e do outro lado seria divino ouvir algo do tipo “to com saudade de você”. Há anos não ouço isso. E quando eu ouvia não dava o menor valor. Desci na Sé e fui tragado por aquela inóspita massa humana e apenas me deixei levar junto com a boiada. Aquilo me divertiu um pouco. Pensamentos sórdidos passam por minha mente quando me sinto deprimido. Poderia matar alguém ali e ninguém se daria conta. Olho para anônimos rostos velozes e parecem almas desesperadas e tristes. O grande termômetro digital aponta agonizantes trinta e três graus na Sé. A cidade arde. Calor insuportável pra mim e agravado com um ar tão seco que parece que vivemos num miserável microondas. Deslizei para o caos do Parque Dom Pedro e me meti no mercado municipal para olhar as coisas e comparar com o mercadão de Belo Horizonte. Não comparei porra nenhuma. Apenas chupei duas grandes fatias de abacaxi e perambulei à toa por lá. Nenhuma mulher me notou mas eu olhei para diversas.

Gostaria de ser um sujeito mais atraente, ainda que o preço para isso fosse minha completa estupidez. As mulheres olham caras atraentes. Não olham pra mim. A falta de sexo me estraga o ânimo, me deixa insosso e sem viço. Acho que também me causa diarréias crônicas. Ando mal do estômago. No fim comprei uma garrafa de cachaça mineira por sete reais e tive vontade de tomar tudo por preguiça de levar aquela porra pra casa. Mas não sou um bêbado sujo e tenho compostura. Apenas fui dando pequenos e reanimadores goles enquanto rumava para o Largo do Arouche para visitar minha amiga Anita. Tivemos um caso no passado, há incontáveis anos, e apenas lembrava onde ela morava. O excesso de tesão, o desânimo, a preguiça e a falta de grana nos levam irremediavelmente numa nefasta rota de colisão com o passado. Encontrei o prédio. Estava tudo igual e cinza, e ainda funcionava a porra do elevador com a ruidosa e sinistra porta sanfonada. Até o sonolento porteiro pardacento e gordo parecia o mesmo. Ele interfonou e anunciou meu nome com desdém. Fiquei ali parado na sua frente aguardando. Ele repetiu meu nome já demonstrando total falta de paciência com seu serviço. Claro que Anita não lembrou de mim e deve ter dito pra ele repetir o nome. Daí o velho desligou, me mediu e apenas disse “pode subir”. Embarquei naquele fóssil de elevador e lentamente fui chegando ao quarto andar. Ela me aguardava no corredor. Estava horrorosa e descabelada, uma cara triste e dramática como se seus ossos faciais tivessem lhe tragado a carne. Era uma mulher linda há dez anos. Uma beldade que parecia que seria eternamente cobiçada pelos homens. Agora parecia um farrapo humano e tão esquelética e decadente quanto o velho elevador. Por meus cálculos eu sou dois ou três anos mais velho que ela. Mas, diante daquele triste espectro, me senti um adolescente em pleno vigor físico.

“Tá tudo bem com você”, ela me disse. Sua voz pastosa e meio estridente era de uma pessoa muito idosa. Aquilo me deixou sem ação e, claro, o tesão foi embora na hora que vi aquela figura incrivelmente arruinada. “Sim, e você?”, perguntei com um jeito meio imbecil, ou talvez um pouco arredio. “To indo, quanto tempo heim? Entra, entra”, me disse isso e saiu arrastando seus chinelos destroçados, com passos lentos e se forçando para encolher a barriga e ficar minimamente mais ereta. Aquela sala, que antes eu ouvia com ela world music sentado no chão e fumando maconha, agora era um lugar pálido com ostensivo cheiro de gordura. “O que você trouxe aí”, ela me perguntou ao ver a garrafa envolta num saco plástico em minha mão. “Uma cachaça pra gente lembrar dos velhos tempos”, foi o que eu disse simplesmente porque me ocorreu apenas isso. Acho que a maioria das vezes que respondemos ao que nos perguntam pecamos por não refletir um pouco a respeito. “Então serve aí”, ela me disse sorrindo e botando dois copos encardidos que pegou de cima da pia cheia de louças sujas. Aquilo tudo me deu nojo. Inclusive dela. Queria sair fora dali o mais rápido possível, mas não poderia fazê-lo assim, na grosseria, teria que ser de uma maneira educada, porém fui falar a maior merda ao dizer que trouxe a porra da cachaça pra gente. Havia ainda quase a garrafa inteira. Servi meu copo e o dela. Enchi ambos até pouco menos que a metade. Ela riu. “Enche essa porra caralho, vamos relembrar os velhos tempos ou não?”. A gente bebia muito. E fodia muito também depois. E essa segunda parte já começava a me aterrorizar. Ela bebeu sua super-dose numa golada só. “Viva”, ela disse me parecendo muito animada e pegou a garrafa e encheu outro copo até a boca. Eu ainda bicava timidamente o primeiro copo. Ela virou o outro com tudo. Não, não pode ser. Definitivamente estava atordoada, louca e aquilo tudo daria uma grande merda. “Vá com calma”, eu disse. “Calma o caralho”, ela me respondeu. A coisa ficou feia antes do previsto. Tivemos uma ruptura traumática no passado. Aquilo tudo me veio em mente. Ela encheu o terceiro copo, mas desta vez não o virou e me olhou com intimidante ferocidade. “Anita, acabei de chegar depois de tantos anos e você me trata assim?”. Foi o que eu disse, e também sem refletir muito, apenas me ocorreu isso. “Vai a merda, seu filho da puta”, ela desferiu já aos gritos. Levantei. Ela me empurrou e ameaçou pegar a garrafa pra me bater. Imobilizei com facilidade seu braço magro de gente tísica. Ela fedia a carne azeda como quem não toma banho havia dias. “Então vai embora, seu porra, e não volte mais aqui”. Preferi descer pela escada a esperar o elevador com aquela louca no meu encalço. Não a via acho que há dez anos. E, pelo jeito, não a verei mais. A vida nos devora devagar.



Escrito por Mauro Cassane às 17h33
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O trio romântico e o surgimento de um grande amor

Eu e Vince perambulamos pela capital mineira por mais dois dias. Depois de pão de queijo pela manhã, escalávamos estoicamente alguns quarteirões apenas para ver o movimento. Para recuperar o fôlego, cachaça com cerveja no tradicional mercado municipal e mais uma vez percorríamos as ladeiras intermináveis de uma feérica beagá iridescente. As mineiras são tesudas, e quase todas possuem bundas perfeitas e coxas musculosas por conta do relevo montanhoso da cidade. Diferente das cariocas, elas não se exercitam para moldar o corpo, simplesmente transitam com sua brejeirice pelos morros asfaltados num eterno sobe e desce e, assim, ganham boa forma física. Creio que leite e queijo também ajudam a dar substância glútea. E o sotaque é lascivo demais, envolvente e sedutor.

Em nosso último dia, depois do sacro ritual etílico no mercadão, resolvemos visitar o parque municipal. Árvores, ruinhas e aquela horda vagarosa e ensebada que aos sábados assombra os parques das grandes cidades. Curtimos boas horas de tédio assistindo pessoas animadas remando seus barquinhos de madeira num fantasmagórico lago pastoso incrivelmente minúsculo. Antes de nos aborrecer, o milagre. Avistamos uma morena solitária, voluptuosamente sentada num dos bancos de madeira sob a sombra bucólica de uma figueira secular. “Olha só aquela mulher”, me disse Vince apontando sua direção. Olhei. Sim, que mulher. Suas coxas, exuberantes, cruzadas, estavam à mostra. O brilho ostensivo das três da tarde parecia conferir a ela um certo fleuma de mistério e penetrante sensualidade. De preto, com grandes e fúnebres óculos negros a lhe ocultar parcialmente a face, e encapada com um vestido talvez de seda ou algum tecido muito leve, entrecortado por aberturas generosas nas costas e na frente, exibia, para nós e também para os outros, seus seios firmes de proporções infantis. Algumas cachaças, um toque de erva e a condição de forasteiros parecem fulminar qualquer resquício de timidez. E assim nos aproximamos e Vince, com sua peculiar cara de pau, a cumprimentou como se estivesse encontrado uma boa e velha amiga. “Olá, tudo bem?”. Eu esperava um muxoxo indignado da parte dela mas, ao contrário, veio um surpreendente “muito bem, e vocês?”. Sim, essa foi a senha para sentarmos a seu lado. Um de cada lado. 

Depois daquele enfadonho e repetitivo ritual de praxe onde se descortina uma série imensa de perguntas e respostas de ambas as partes, e isso leva pelo menos quarenta minutos, iniciamos, assim, e enfim, um diálogo mais interessante. As pessoas não deveriam se preocupar tanto em se conhecer porque, afinal, somos quase todos exímios mentirosos e nos manteremos eternamente sinistros estranhos. Eu poderia simplesmente ser honesto e dizer de imediato: “olha moça, a gente te achou um tesão, você tá com um jeito de quem tá afins de foder, e então viemos aqui pra saber se temos alguma chance de te comer”. Mas as tais regras silenciosas e jamais escritas não nos permitem agir assim. São as malditas etiquetas sociais. Então perdemos quarenta minutos de conversa fiada para saber cada um o que faz e tudo mais e, depois, mais hora e meia numa complexa e intrincada circunavegação de rodeios e abordagens para sabermos se rolaria um sexo entre a gente. Eu e Vince, mesmo sem qualquer combinação prévia, estávamos dispostos a fechar a viagem com chave de ouro fazendo um idílico sexo a três. Para tentar agilizar um pouco o processo, e visto que este seria nosso derradeiro dia em Minas, pois embarcaríamos no ônibus da meia noite, e o relógio do parque já marcava quinze para as cinco da tarde, propus tomarmos cerveja em algum bar em vez de ficarmos ali naquela porra de lugar enjoado vendo barquinhos idiotas sendo remados por seres bem próximos da completa tolice espiritual.

Ela topou e se propôs a nos levar a um bar ainda inédito pra gente e que também fazia parte da boemia belo-horizontina. “Pertim, pertim”, ela disse. Rimos e a seguimos sob os insistentes galanteios românticos de Vince pra cima dela. Após quinze minutos de escalada esbaforida da rua Bahia, e contornando por outras ruas entrecortando os urbanos Alpes mineiros, chegamos ao tal bar cujo nome, ainda que simpático, não me recordo. Deslizamos pra dentro e não havia lugar disponível. Todas as mesas ocupadas por grupos ruidosos e bêbados. Déia, com sua mineirice charmosa, e toda sua experiência de mais de vinte anos flutuando pelos bares de beagá, chamou o garçom (seu amigo) que imediatamente nos colocou num canto privilegiado. Cerveja, torresmos e mais cachaça. Mulher solta tudo com álcool. E Déia não foi exceção e começou a nos contar um rosário de aventuras impressionantes em que sua maior especialidade foi transar com homens que se auto-proclamam “dominadores”. Ela tem uma certa intimidade com o assunto e chama sujeitos assim de “dono”. Depois nos contou sobre suas experiências masoquistas e tudo mais. Me animei e meti a mão em suas coxas grossas e macias. Ela me olhou fingindo surpresa. “Essa porra toda tá me deixando com muito tesão”, eu disse. Ela apenas riu. “Você já experimentou trepar com dois caras?”, perguntei na lata. A conversa ficou nessa lenga-lenga juvenil, com reiteradas passadas de mão, onde dois caras tentam meter numa mulher que está afins de dar mas faz cu doce.

As horas passam e a única coisa que evoluiu foi nossa bebedeira e as intimidades entre a gente. Nove da noite. Três seres tronxos de bêbados saem cambaleando pelas ladeiras colossais de beagá. Vince a beija, ela me beija, os três tropeçam e seguimos adiante nos esfregando. “Ela tá sem calcinha”, Vince segreda pra mim. Eu a seguro pela cintura, desço a mão por sua bunda dura, e confiro que realmente não há nenhum sinal de marca de calcinha. Aquilo me deixa tarado. Dobramos para uma rua sombria com cheiro de mijo e prédios com alpendres imensos e frios sustentados por redondas colunas pichadas.  Entre as sombras, e protegidos pelo silencioso vazio humano, eu a comprimo numa dessas colunas e percorro com as mãos seus peitos, subo sua saia, sinto sua coxa e toco com os dedos sua buceta molhada. Ela se estremece toda, geme baixinho desferindo mordidelas em minha orelha. Vince acende uma ponta e fica dando várias voltas desencontradas pelas colunas dissimulando o indissimulável. Um grupo de jovens cantarolantes passa do outro lado. Continuamos frenéticos. Vamos meter ali mesmo. Ela se vira e exibe sua anca arqueada, apóia o rosto e os dois cotovelos na coluna suja e eu levanto sua saia fina e me deparo com uma deslumbrante bunda redonda, dura e branca. Camisinha no bolso. Tudo certo. Metemos com ímpeto, gana e estalados tapas em sua bunda. O método foi o do revezamento. Gozo para todos. Dez e quarenta da noite. A levamos ao seu ponto de ônibus. Beijos, carinhos, e doce ternura a três sob olhares indignados dos notívagos trabalhadores. Seu coletivo aparece no horizonte da rua, momento de rápidas despedidas. Vince a pega pela mão e a pede em namoro. Uma cena tocante de imaculado romantismo. Aquilo tudo me emocionou.         



Escrito por Mauro Cassane às 15h06
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Pelas ladeiras de beagá

Estou trabalhando num livro que relata viagens de ônibus pelo Brasil. Vai demorar uma infinidade para ficar pronto. E talvez nunca fique. Muito embora, desta vez, tenho algum tipo de apoio financeiro. E isso me permite viajar sempre. Eu escrevo minhas impressões sobre personagens, situações, uma espécie de diário dos acontecimentos, e deixo ali no computador. Não escrevo mais a mão. Deveria fazê-lo, mas não consigo mais. Se um dia o computador pifar, fodeu. Perco tudo. Bom mesmo seria fazer como Dostoiévisk, Machado e Kafka, além de outros centenas de gênios da literatura: escreviam tudo a mão. Fico imaginando a musculatura dessas mãos. Verdadeiras fortalezas. A minha é uma lástima, pois só faço bem digitar centenas de letras por segundo. Talvez um dia, exercitando essa dedilhação toda, meus dedos sirvam para algo mais útil como, por exemplo, fazer uma mulher gozar.

 

Bem, voltando à viagem. Eu e Vince embarcamos para beagá. É assim que os mineiros e nós também, os paulistanos, chamam Belo Horizonte. Tem uns que chamam de “belô”, mas esse termo eu considero mais afrescalhado. Uma viagem confortável na classe mais luxuosa do ônibus. É divino gozar de patrocínios. Oito horas numa poltrona larga que se reclina como uma boa cama e pouca grana no bolso. Na outra poltrona, Berta. E, na outra, um pouco mais atrás, Mariana. Berta é atriz há 50 anos e, no seu rosto, marcado pela idade, esbanja um lirismo contagiante e uma ternura adocicada. Uma linda mulher que, na conversa que travou comigo, como magia, fez o tempo do trajeto parecer apenas uma ou duas horas. Falou de cinema, claro, que é sua especialidade. E me contou que estava fazendo essa viagem para mais uma filmagem. Virei seu maior fã. E Mariana, uma jovem de pouco mais de trinta anos, é apaixonada por animais. Vince ficou ligado nela. Mas a vida é feita de paixões fugazes. Na rodoviária mineira tudo se acabou. Seguimos nosso destino. Sentirei saudades de Berta.  

 

Chegamos na rodoviária pouco mais das sete da noite e os anfitriões nos recepcionaram e fizemos uma rápida city tour. Ruas largas e subidas incontáveis para todos os lados. Bons bares e hotéis caros. Percorremos diversos bairros e me agradou o centrão, mas por insistência dos patrocinadores ficamos no bem-bom de um hotel três estrelas no bairro burguês de Savassi que é um lugar mais parecido com a zona Sul de São Paulo. “Minha vida é essa, subir Bahia, descer Floresta”. Essa frase está ali imortalizada em um velho marco no centro de beagá. Não lembro o nome do autor. Mas é isso mesmo. Em Belo Horizonte as ruas invariavelmente sobem e descem. Subi a Bahia algumas vezes, mas em nenhuma desci a tal rua Floresta. Os bares são diversos, e todos eles, ao menos aqueles que freqüentei, são habitados por tipos curiosos que seria mais ou menos a mistura de um hippie com um intelectual esfarrapado.

 

Vince queria de todo jeito conhecer um tal lugar chamado clube da esquina. Perguntamos para os anfitriões e eles, no jeito deles, na verdade um pouco caipiras, não souberam dizer mas indicaram outros bares da moda. Não queríamos ver aquela gente enfadonha de sempre dos lugares badalados das grandes metrópoles. São os mesmos tipos em todo mundo. De Paris, passando por Tóquio, até Porto Alegre, todos tediosos e sem espírito. São seres que se proliferam e fedem como ratos. As noites urbanas da moda só guardam diferença, umas das outras, no jeito de falar. Entramos no hotel. Cento e dez mangos a diária para o quarto duplo. Orçamento apertado mas os anfitriões bancaram uma parte. Topamos. Paulo é o porteiro, um mineiro faceiro e metido a malandro, mas gente boa. Araújo, o anfitrião, se desculpou por não poder nos levar jantar. Ufa. Foi um alívio. Noite livre.

 

Vince perguntou para Paulo sobre o tal clube da esquina. E Paulo, seguro de si e de seus conhecimentos de antros noturnos, não hesitou em nos dar o endereço. “E qual o nome do bar”, perguntou Vince. “É esse mesmo: Clube da Esquina”, disse Paulo. “É nesse lugar que o Milton Nascimento se reunia com amigos e bebia, cantava e tudo mais?”, questiona Vince, “Sim, sim”, responde resoluto o simpático porteiro. No quarto liguei imediatamente para Beth. Minha amiga mineira. “Hei, vamos beber no clube da esquina”, eu disse com a veemência de um bom conhecedor dos melhores botecos da capital mineira. “Onde?”, ela redargüiu com indisfarçável desprezo por minha sugestão. “Porra, no clube da esquina, o grande bar da saudosa boemia mineira”, respondi já meio indignado com a ignorância de minha amiga que, afinal, que porra, mora em Belo Horizonte. “É um lugar chato pra caralho”, ela me disse. Fiquei puto. E fui peremptório “Mas é perto daqui e não conheço nada e me disseram que posso ir a pé até lá”. “Tá, tá bom, então dez horas lá?”. Acertamos tudo.

 

Fumamos um beck estranho no quarto. Um extrato de fumo inusitado que compramos de um músico em Sampa e que mais parecia pó de café prensado e meio úmido. Deu trabalho para carburar de verdade e precisava fazer um grande esforço pra tragar. Mas, em pouco tempo, deu pra sentir que o esforço valeu a pena. Saímos desencontrados pelas melancólicas e lúgubres ladeiras de beagá rumo ao glorioso bar.  Beth já nos esperava tranqüilamente sentada à mesa com meia cerva consumida. Nos juntamos a ela, mas ela não parecia muito feliz ali. “Isso aqui é uma droga de lugar sem graça e sem personalidade”, foi o que disse logo quando sentei à mesa. Ela tinha razão. Era uma farsa. Uma merda de bar insosso que só tomara emprestado o nome “clube da esquina”. Não consegui imaginar Milton Nascimento jovem ali naquele lugar fresco. Pagamos a conta e caímos fora daquele engodo Ela nos conduziu, por entre as imensas ladeiras, até a cantina do Lucas no centrão velho. É uma espécie de primo do Sujinho em Sampa. Algo assim. Um lugar de quase meio século de existência com antigos garçons engomados e meio aborrecidos. Seu Deco nos atendeu. Um velhinho com seus setenta e poucos anos e quase quarenta deles servindo aquelas ensebadas mesas de rotas toalhas vermelhas.

 



Escrito por Mauro Cassane às 18h32
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continua...

Comemos muito. E bebemos mais ainda. Nada como tomar cachaça em Minas. Parece mesmo que tem outro sabor. Mais divino, mais terra, mais roça. Várias doses de Salinas, Boazinha, Veio de Minas, Chico Mineiro. Pensei em Helena Meireles. A gente toma cachaça e pensa em moda de viola. Beth cumprimentava todo mundo com acenos e beijos. Estava feliz da vida. De lá descemos outras tantas ladeiras e demos no grande parque municipal onde rolava uma festa de gente de teatro. Entramos e já era uma da madruga. Um sujeito esquelético e quase translúcido fez uma performance bizarra tirando a roupa e escrevendo nomes de garotas por todo o corpo com uma caneta, depois traçou grandes vergões com uma tesoura e daí, com uma marreta, despedaçou imensos blocos de gelo que continham fotografias de mãos, pés, e pernas. Não entendi nada, mas foi engraçado. Um quebra gelo. Estávamos bêbados.

 

Beth andava freneticamente. Nós a seguíamos obedientemente como se ela fosse nossa grande guia da noite. Ela queria fumar um baseado e nós não tínhamos mais nada. Beth então, sem cerimônia, encostou em um solitário cara negro que se isolara num canto em um banquinho sobre grandes árvores. Fiquei conversando com Vince e imaginamos que fosse mais um de seus velhos amigos. Ela acenou, nos chamou e fez as apresentações. “Galera, esse aqui é o Justino, de Mariana”. Um sujeito batuta. E melhor: morador da histórica Mariana. Fumamos um baseado perfumado, parecia cítrico, feito na palha, um verdadeiro artesanato roceiro. Depois bebemos diversas doses de quentão bancadas pela doce Berta. As coisas começaram a ficar confusas e tortas. Berta se apoiou em mim e eu estava já com o estômago virado. Uma banda tocava tolices melódicas em um dos palcos. As pessoas se arrastavam lentamente. “Vamos cair fora daqui, vai, vamos pro seu hotel”, me cochichou no ouvido com sua voz melosa e com seus peitos massageando minhas costas. Ela cambaleava um pouco e parecia apressada ao se antecipar e se despedir de Justino abruptamente. Mulheres são assim mesmo. Decididas. Partimos em retirada e, para evitar as ladeiras infinitas, tomamos um táxi.

 

No carro elogiamos o jeito zen de Justino e ela nos confessou que nunca antes tinha visto o cara. Encostou nele porque viu, como uma ave de rapina, a marofa nas mãos dele. Que mulher incrível. Em minutos chegamos ao hotel. Era outro porteiro que fazia o turno da madrugada. Um senhor sereno, com sonolento ar caipira, abriu a porta de vidro e nos botou pra dentro. Antes de nos dar a chave decretou que Beth não poderia subir. Ela contestou imediatamente com forte aspereza e isso o deixou ainda mais irredutível ao ter sua fugaz autoridade ameaçada. A confusão foi armada. Prefiro a diplomacia, sempre preferi, mas Beth não estava para diálogos diplomáticos àquela hora da madrugada e no estado idílico de álcool e fumo em que se encontrava. Virou um fuzuê desagradável e eu e Vince apenas assistíamos ao celeuma calados. Por nossa atitude, ela pareceu entender que estávamos do lado do porteiro e creio que se chateou com nosso silêncio. Talvez tenha parecido que fôssemos fracos. Não sei ao certo. No fim, já bem brava, ela resolveu sentar-se no sofá do hall. Aproveitei a momentânea calmaria e disse para o velhinho que seria gentil deixá-la ao menos subir um pouco pois não estava bem e não seria legal ela ir embora daquele jeito. Com diplomacia. Com jeito. Deu certo. Ela subiu mas já estava abalada, e chorava aborrecida. Não houve como acalmá-la. A noite se estragou. No quarto, em desespero, Beth sorveu mais duas cervejas e caiu fora em solitária busca por outros bares, quiçá por homens de mais atitude que nós. Naquele momento me senti um grande idiota ao ver aquela linda mulher ir embora. Ficamos mais uns dias em Belo Horizonte, mas não encontramos mais a doce Beth.      

 



Escrito por Mauro Cassane às 18h31
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Perdi minha segunda virgindade, e outra vez sem glamour

Conheci Lily de um jeito estranho e demasiadamente contemporâneo. Coisa moderna. Foi pela Internet. Engraçado, ainda me lembro de quando escrevia minhas matérias a mão por implicância em utilizar a última palavra em tecnologia: uma Olivetti elétrica. Tinha pavor daquele troço que passava de uma linha para outra apenas com um toque do dedo numa tecla macia. E demorei uns meses para me dar com ela. Gostava mesmo da minha saudosa e arcaica Olivetti Lettera 92 a bisavó dos notebooks. Agora, vinte anos depois, faço tudo pelo computador. Inclusive pagar minhas contas. O tempo passa depressa demais. O mais assombroso: faço, também, novos amigos. Tudo sentado diante de uma tela de computador. E foi assim que conheci Lily, uma garota que, deduzo, não teve nenhum contato com uma máquina de escrever. Veja só, que nome poderoso para uma máquina. Agora, os computadores escrevem e até te corrigem caso cometa alguma barbeiragem gramatical.

Lily apareceu subitamente no meu msn. Confesso meu desconforto ao tratar de msn, que sequer é uma palavra e sim apenas uma mísera sigla de algo, ao menos pra mim, incompreensível. Pois bem, não tenho intimidade com isso, mas agora já faz parte de minha realidade. Antes falávamos por telefone, e pra mim já era uma magia impressionante. Agora falamos com os dedos tamborilando o teclado. A voz deixou de ser importante. Ganham alma as letras cintilantes que aparecem no micro. Eis Lily. Mas poderia ser Emanuel, João ou Madalena. Sem voz não dá para saber. Há o recurso das câmeras, mas Lily me surgiu assim, simplesmente Lily. E eu não sei usar câmera no micro. Sequer havia uma foto. Aceitei seu pedido de me acrescentar no tal msn, e então se deu nossas conversas intermináveis em minhas embriagadas noites insones.

Aqueles diálogos foram esquentando. Falávamos de amor, música e viagens. Lily se disse casada, e nunca perguntei detalhes de nada de sua vida. Era uma boa companhia para minhas solitárias madrugadas lúgubres. Estava tudo perfeito até começarmos a falar de sexo. Certa vez ela me disse: “hoje eu estou com um tesão incontrolável, e quando eu fico assim me dá vontade de chupar um pau”. Bem, o curioso é que estávamos falando de política. E o bizarro é que eu sequer sabia como era Lily. Se feia ou bonita, gorda ou magra e, pior, homem ou mulher. Até então era apenas um bom papo. E nada mais. Esperei um pouco para responder. Não estava atônito, mas confuso. Ela deve ter percebido e disparou um constrangido: “desculpe, foi mal, saiu sem querer, vamos continuar nossa conversa”. Continuamos, fingi que não houve nada, mas aquilo mexeu comigo. Fiquei com tesão. Outras vezes ela me chamava e falava tolices sem sentido. Parecia bêbada e cometia muitos erros de ortografia. Eu sempre fui paciente, nossas conversas prosseguiam, até o dia em que resolvi retomar o assunto do tesão e vontade de chupar um pau. “Hei, Lily, você gosta mesmo de chupar um pau quando fica com tesão?”. Nada apareceu na tela por um momento. Agora era ela quem paralisava os dedos. Imediatamente me arrependi de ter feito tal pergunta. Fui um idiota. Mas dei o troco, pois fiz a pergunta no meio de um assunto, creio eu, de cinema. E a resposta surgiu ainda mais surpreendente que minha subida e inesperada questão: “gosto sim, você, por acaso, quer que eu te chupe?”. Me parece que as mulheres gostam de fazer provocações impossíveis de serem efetivadas. Fosse num bar, ali téte-a-téte, ela não me diria isso jamais. Aliás, nunca nenhuma mulher me disse tal coisa ao vivo, nem mesmo diante de perguntas imbecis que, via de regra, eu faço a elas. Respondi: “todo homem gosta de um felatio”. Preferi o termo mais acadêmico e erudito ao chulo não sei por que razão. Ela, no entanto, inabalável, se mostrou senhora absoluta da situação: “eu chuparia você agora se você quisesse”. Que homem fica incólume diante de uma frase como essa disparada por uma mulher? E eu resolvi entrar de vez na brincadeira para ver até onde iria: “eu quero”.  Ela escreveu uma palavra irreproduzível mas que sugeria um gemido. E emendou a seguir: “então tira esse pau gostoso pra fora”. Fiquei sem ação. Como assim tirar o pau pra fora diante de um computador? Não escrevi nada e ela seguiu em frente como se estivesse num frenesi incontrolável. “então, tirou? Ele tá bem duro, mexe nele vai, mexe...”. Meu pau sequer estava duro, e diante de tudo aquilo, se esquivava vexado e envergonhado. Eu me sentia verdadeiramente ridículo e estúpido olhando para tela do computador. E nada escrevi, apenas lia um frenético desfile de frases atiradas com veemente furor: “vai, gostoso, deixa em sentir esse pau”...”nossa, como é grande e duro”...”hummm, mete fundo na minha boca”...”ai, humm, não goza ainda, espera...”. Porra, pensei em escrever algo para ela parar com aquela bobagem mas fiquei ali estático, apenas lendo sua interminável loucura. Até que, enfim, chegou a derradeira frase emendada de uma pergunta: “nossa, que pau heim, gozou gostoso?”. Escrevi singelamente: “você está tirando uma da minha cara ou algo assim?”. E ela: “nossa, não vai me dizer que me desdobrei aqui e você nem ficou com tesão?”. Respondi: “bem, desculpe, era pra ficar?”. “Ah, vai a merda”. Foi o que ela me escreveu e, imediatamente, quando pensei em responder, o quadradinho mágico me informou que ela estava “offline”. Há tempos ela não aparece e estou feliz por isso. Foi minha primeira experiência sexual virtual. Não foi das melhores. Eu ainda era virgem nessa coisa. São as insânias dos tempos modernos.      



Escrito por Mauro Cassane às 16h20
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Um quase beijo, inesquecível...

Passei a tarde inteira escrevendo uma reportagem sobre o cotidiano de uns pescadores esquecidos em um povoado do litoral norte de São Paulo. Fiquei uns dias com eles como hóspede do Zé Amaro, um sujeito taciturno que me cedeu um pequeno canto de sua casa de barro e madeira que ele mesmo ergueu nas encostas do morro. Até que gozei de bom conforto na velha cama com um roto colchão de mola. Usei como travesseiro minha mochila de lona e ficou perfeito. Ele dormia na rede e só falava se eu puxasse assunto, coisa que eu fazia o tempo todo. Senão simplesmente entrava e saia da casa sem dizer nem olá, nem tchau nem nada. Não havia energia elétrica, nem gelo, e a única luz era oriunda de uma lamparina esfarrapada que ficava amarrada nos sarrafos do teto baixo. Em umas caixas pelo chão batido encontrava-se arroz, farinha, óleo, cebolas, batatas, muito sal e alho. No outro canto uma pia amparada por uma tábua que servia como mesa e como suporte para o fogão movido a álcool. Apenas um banco e nada mais. Não havia mulher, ele mesmo fazia o rango. Fiquei cinco dias ali, e não vi o cara sorrir nenhuma vez. Me acostumei com o cheiro ocre do lugar e também compreendi o seu jeito. No fundo era um sujeito bacana, mas tímido pra caralho. Era um bom pescador, eu não o via quando saia antes do sol nascer mas sempre o via chegar carregado de peixe. Vendia quase tudo na cidade, e deixava sempre um resto pra comer fresco em casa. Não sei onde enfiava a grana. Cozinhava mal e só comia o que fazia, e passava o resto da noite remendando sua rede e enchendo seu encardido copo com pinga.  Comi apenas a primeira noite com ele, e foi a coisa mais terrível que passei nessa viagem. Uma comida insossa feita com um peixe fedido e gorduroso cuja pele parecia de borracha.

A comunidade tem mais de cinqüenta pessoas. Fiz amizade rápido, e fui bem acolhido e comia muito bem cada dia num lugar diferente. Sempre peixe. Me contaram depois que Zé Amaro teve um grande desgosto quando sua jovem mulher morreu afogada em uma noite chuvosa em que ele ficara bêbado e houve uma imensa briga entre eles. Ela correu da casa direto pro mar. E ele apenas ficou observando ela sumir feito uma uva num liquidificador. Daí pra frente ninguém mais o viu bêbado, tampouco conversando ou sorrindo. Não encontraram o corpo da moça. E eu sinto uma mórbida vontade de perguntar tudo isso para o Zé. Mas não o fiz. Ainda bem. Muitas vezes temos que nos controlar para as coisas darem certo. Ele foi a primeira pessoa que vi quando cheguei de barco. E fui logo perguntando se havia como eu dormir em algum lugar. Ele nada disse, apenas abriu a porta de sua casa e apontou a velha cama com o colchão de mola. Bem, foi isso. Acho que até ficamos amigos. Quando fui embora ele me estendeu a mão e me disseram que há anos ele não fazia isso com ninguém. O legal é que o cara não roncava, e eu tenho sérios problemas para dormir com alguém roncando ao meu lado. Na verdade desconfio que ele sequer dormia. Apenas se desprendia de seu espírito na escuridão da madrugada e aguardava a hora de voltar ao mar para tentar encontrar sua amada.

Poesias à parte, tinha que escrever depois alguma coisa sobre isso tudo. É meu ganha-pão. Fotografei, bebi pinga e me enchi o saco de tanto comer peixe frito, assado, com banana e ensopado. Agora era a hora de contar a história para os leitores da revista. Mesmo como jornalista, nem sempre conto a verdade. Odeio ter qualquer compromisso com a verdade. Contei as coisas ao meu jeito e fiz daquele povoado um recanto de heróis anônimos. Sobreviventes imaculados de um mundo perverso. O Zé Amaro do meu artigo virou um idealista que lutava fervorosamente pelos direitos de sua comunidade e era, além de grande orador, um engajado defensor do meio-ambiente. Foda-se. Temos fome da verdade, mas nos alimentamos com as mentiras.

Escrevi tudo e mandei para o editor. Acendi um baseado para relaxar e estava imaginando como seria minha sexta-feira. Meus amigos de anos são homens dedicados à família. Vince, meu amigo também, o único solteiro, só que vinte anos mais jovem que eu, e também meu parceiro de viagens pelo Brasil, estava preparando sua kitnet para receber duas ninfas para uma orgia juvenil e eu precisava fazer algo. Pensei em ligar para Denise, a fotógrafa mais tesuda e perva que conheço, para uma noite insana num bar de swing. Ela tem uma bunda perfeita e é uma das poucas mulheres que conheço que goza só de chupar o pau. Penso nisso e me animo. Mas daí para ligar é um passo que parece impossível de se dar. Me contentaria apenas em conversar com um bom amigo num bar e relaxar, descontrair. Penso no Teta, o meu bar de jazz preferido. Mas lá é estranho chegar sozinho. Vou parecer uma bicha velha. Eu tenho um tipo que lembra essas bichas velhas e saradas. Careca, quarenta anos, ando sempre de camiseta e jeans e ainda preservo um corpo dentro dos limites da decência física. A gente tenta, até se esforça, mas no fundo somos sempre preconceituosos. Na essência temos mais defeitos do que qualidades. E é isso que move esse imenso fluxo de gente para consultórios de analistas. A gente não consegue encarar essa realidade: somos verdadeiramente defeituosos e a maioria dos problemas vem do próprio caráter. Ah, sim, é bom lembrar, estou me referindo a pessoas de boa índole.

Mas antes de qualquer decisão do que fazer com minha sexta-feira recebi um telefonema maravilhoso. Era Sofia. Sua voz macia, aveludada, é o tipo de mulher cuja presença é sempre inesperada. E isso me fascina. “To com vontade de conversar um pouquinho com você”. Sim, aquele jeito naturalmente sensual e sensivelmente pueril. Meu estômago ficou polarmente gélido. Fiquei surpreso. E eu tinha sonhado com ela, que a tinha beijado apaixonadamente. Conversamos por quase uma hora por telefone. Não resisti e contei o sonho. Ela apenas ouvi, não comentou nada. Ficou quieta. Eu compreendo o silêncio dela. Convidei-a para jantar. De imediato ela declinou. Insisti. Ela assentiu não sem antes rezar um rosário que exigia de mim um juramento solene de que não tentaria nada com ela. Jurei sem pensar. Jantamos um suculento filé no Sujinho. Tomei três cervejas e ela, com minha ajuda, duas capirinhas. Falamos o tempo todo. Ela é ao mesmo tempo doce e arredia. Mas sinto que gosta de estar comigo, porém tem medo de se apaixonar por mim. “Seria um desastre se eu me apaixonasse por você”. Ela me diz. Não pergunto o porquê. Seria tolo demais fazer isso. Conversamos sobre várias coisas e depois, já meio altos, brincamos de imaginar como seríamos se fôssemos namorados. Foi engraçado e concluímos que brigaríamos muito, mas também nossas transas seriam insanas e intensas. Essa última conclusão foi exclusivamente minha, ela apenas ouviu e sorriu com timidez. Levei-a para casa lutando contra meu desejo quase incontrolável de beijá-la. Nos despedimos com um terno beijo no rosto, mas nossos lábios, quase acidentalmente, se tocaram. Fiquei muito feliz. Depois fui ouvir um jazz no Teta. Sozinho mesmo. E nem me importei se me confundiriam com um veado.      



Escrito por Mauro Cassane às 15h10
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